Clipping » Para noivos de fino trato – Revista Veja SP

Revista Veja São Paulo

 

Para noivos de fino trato

No universo das superfestas de casamento, organizadores de cerimônias são contratados para garantir

Gabriela e Juliana, da Festività: faz parte de seu trabalho gerenciar conflitos familiares, como os de noivas com sogras

que todos os detalhes saiam impecáveis

Há muito que as cerimônias de casamento deixaram de ser uma celebração para a família e se transformaram em espetáculos ou eventos. Não à toa, o mercado de matrimônios está em ponto de ebulição. As festas tornaram-se cada vez mais caras e criativas. Ao redor desse mundo de sonhos, hoje orbita uma variedade de pelo menos 600 empresas. Entre doceiros, banqueteiros, cenógrafos, estilistas, maquiadores e padres da moda, destaca-se um grupo de profissionais responsável por centralizar os serviços e garantir que tudo saia impecável no grande dia. Trata-se dos organizadores de cerimônias – ou wedding planners, em inglês, como preferem os mais afetados. Eles prestam uma consultoria completa para que os noivos não fiquem perdidos em meio a tantas ofertas e detalhes. “O mercado de casamentos era doméstico e os preparativos cabiam à noiva, sua mãe e sua avó”, afirma Vera Simão, que em trinta anos de carreira cuidou dos enlaces das filhas do ex-prefeito Paulo Maluf, do megainvestidor Naji Nahas e da empresária Tânia Piva de Albuquerque. “Hoje virou um negócio superestruturado.”

De olho nesse mercado, que pelas suas estimativas movimentaria 2 bilhões de reais por ano, Vera criou em 2002 a feira Casar. O empreendimento anual caminha para mais uma edição, que começa nesta quinta-feira, em pleno mês das noivas, no Terraço Daslu. Nesses cinco anos, Vera acompanhou o crescimento e a estruturação do setor. O número de empresas catalogadas saltou de 200 para 600. Destas, noventa estarão presentes na próxima exposição, ao preço de 3.500 a 6.500 reais pelo aluguel do espaço. Deve passar por ali, em quatro dias, um público de aproximadamente 6.000 visitantes, entre noivos, curiosos e profissionais da área.

 

Vera Simão: “O mercado de casamentos era doméstico. Hoje virou um negócio superestruturado”
Lianinha e Carla, da Wedding & Co.: cuidado para evitar deslizes, pois a culpa sempre acaba sobrando para elas

“Não é fundamental contratar um organizador, mas quem tem um aproveita melhor a festa”, diz Rosa Maciel. Formada em relações públicas, ela atua no mercado de casamentos há oito anos, mesmo período em que publica o Guia de Noivos, dirigido a quem é corajoso a ponto de fazer tudo sozinho. “Parte da nossa tarefa é gerenciar os nervos da família.” De fato, pedir ajuda a um especialista é pagar para não ficar estressado – pelo menos não muito. Seu papel consiste em apresentar fornecedores, centralizar contratos, negociar pagamentos e buscar soluções para os pedidos mais extravagantes. Minutos antes do “sim”, ele se certifica de que todas as encomendas chegaram em ordem (das flores ao bem-casado) e cuida do cerimonial. “Se algum detalhe não sair como o esperado, a culpa acaba sobrando para nós”, conta Carla Fiani, sócia da Wedding & Co. Economista de formação, Carla associou-se na empresa à administradora Lianinha Moraes, uma das herdeiras do grupo Votorantim. Em quatro anos, elas realizaram 83 casamentos.

Contratar um desses organizadores custa no mínimo 6.000 reais. Mas o preço pode ser bem mais alto. Há quem cobre uma porcentagem sobre os gastos totais da cerimônia e da festa, o que pode elevar bastante os honorários. A noiva continua tendo de provar os docinhos, degustar o bufê, folhear álbuns para escolher o fotógrafo e tudo o mais. Cuidar do enxoval e do vestido costuma ser atribuição de sua mãe. Escolher o local da lua-de-mel em geral cabe ao futuro marido. Muitas mulheres usam os especialistas como espécies de mães de aluguel. “Não somos governantas”, avisa Rosa Maciel. Em seu escritório, ela registra o recorde de uma cliente que lhe enviou cerca de 800 e-mails durante os preparativos. “A gente convive com ansiedade, insegurança, sonhos e desafios”, afirma a relações-públicas Marina Bandeira Klink, mulher do navegador Amyr Klink. “Dá muito mais trabalho organizar um casamento do que evento corporativo.”

Chris Ayrosa, da Party Design: especialista em criar cenários de sonhos, ela cuidou das festas de Kaká e de Athina Onassis

Com catorze anos de altar, Marina adquiriu um olhar quase de raio X para identificar o que o cliente quer e pode pagar. Para uma noiva clássica que não se preocupa com a conta, o estilista indicado é Demi Queiroz. Se ela quer um vestido estilo camisola e tem corpo impecável, deve bater à porta de Marie Toscano. O bufê para noivos modernos pode ser o de Neka Menna Barreto, enquanto os mais tradicionais preferem o França. Ricos antenados ficam com a Casa Fasano. Outra de suas importantes funções é resolver os incontáveis pepinos de última hora: o som que apresenta problemas, o banheiro que entope, o convidado que bate o carro, outro que bebe demais… Por isso, o bom organizador é aquele que abre a igreja e fecha o salão, atento aos mínimos detalhes.

No mercado dos casamentos, costuma-se dizer que existem as “desorganizadoras”, que mais atrapalham do que ajudam. A juíza Ana Paula Gomes sabe bem o que é isso. Há dois anos, sua irmã achou melhor ela mesma preparar a festa e chamou uma pessoa para auxiliá-la somente no grande dia. Ela confundiu os padrinhos, errou o cerimonial da igreja e foi embora no meio, sem resolver o problema da falta de bebidas. Para sua boda, em abril, Ana Paula contratou a Marriages. “Cuidei de alguns itens, como o bufê, mas deixei a empresa responsável pelo resto”, diz. Como resolveu ela mesma parte das questões, a conta ficou em 3 500 reais. “Foram muito bem gastos”, acredita.

Marina Bandeira Klink: com catorze anos de experiência, olhar de raio X para identificar o que o cliente quer e pode pagar”
Rosa Maciel: “Cuidar do enxoval e do vestido é atribuição da mãe da noiva. Nós não somos governantas”

A Marriages surgiu como tantas outras empresas do ramo. Há dois anos e meio, a advogada Marcia Coelho Possik abriu o negócio depois de promover o matrimônio de uma amiga. O trabalho aumentou e agora ela tem a ajuda da designer Ana Júlia Araujo, que virou organizadora após planejar sua própria cerimônia. Durante algumas agitadíssimas semanas, elas e suas clientes chegam a se sentir as melhores amigas. “Até seguramos o vestido da noiva para ela fazer xixi”, revela Marcia. “É preciso ter muita intimidade.” Não raro, o organizador tem de bancar a babá e tirar o copo da mão do noivo se ele estiver exagerando nos goles. Ou gerenciar tensões familiares. Disputas de poder entre a noiva e a sogra são comuns. Também são freqüentes conflitos entre os pais separados que não podem se sentar à mesma mesa. “Somos meio psicólogas”, afirma Juliana Sampaio, dona da Festività. Desde 2002, ela e sua sócia, Gabriela Camargo, realizaram cerca de 100 casamentos. Só no último fim de semana, foram três: um para 700 pessoas no Jockey Club, outro para 400 no Leopolldo e um terceiro para 900 no Terraço Daslu.

Marcia e Ana Júlia, da Marriages: durante a festa, olhos atentos nos noivos e nos convidados para evitar saias-justas

Quem contrata um desses serviços normalmente quer uma festa única. Dona da Party Design, a cenógrafa Chris Ayrosa é requisitada para montar estruturas cinematográficas. No enlace do jogador Kaká com Caroline Celico, em dezembro, ela mandou revestir o teto do salão do hotel Grand Hyatt com 14.000 metros quadrados de tule branco, comprados na Rua 25 de Março (ou na “Twenty-five”, como ela gosta de dizer). O objetivo era mudar o aspecto de centro de convenções do ambiente. Foi sua empresa que coordenou a celebração da bilionária Athina Onassis com o cavaleiro Álvaro Affonso de Miranda Neto, o Doda. Sua próxima missão é fazer com que a troca de alianças entre o publicitário Roberto Justus e a atriz Ticiane Pinheiro, neste sábado, saia perfeita – da cor da forminha dos doces (rosa antigo e marrom-café) aos sessenta buquês de rosas suspensos que vão ornamentar o salão principal da Casa Fasano. E dá-lhe Marcha Nupcial.